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Ice AVenturaS

A Aventura de estar no topo do meu Iceberg... Ou seja, da minha mente! Pensamentos, reflexões, experiências, assuntos sérios ou maluquices da pessoa, mãe e psicóloga... Uma viagem talvez alucinante e meio louca!

Ice AVenturaS

A Aventura de estar no topo do meu Iceberg... Ou seja, da minha mente! Pensamentos, reflexões, experiências, assuntos sérios ou maluquices da pessoa, mãe e psicóloga... Uma viagem talvez alucinante e meio louca!

Einstein, de certo modo, tinha ainda mais razão do que julgava...

Há uns tempos falava com uma amiga, também psicóloga e com outras quantas caracterísitcas e coincidências que nos juntaram, mesmo que a distância nos separe e por vezes, falemos bem menos do que gostaríamos...

 

Falávamos sobre luto e perda. Falávamos sobre morte e vida.

 

A perda supera-se de algum modo...
Atribui-se-lhe um sentido e, por vezes, até conseguimos ver aspetos positivos na crise, no momento, naquilo por que se passou, na oportunidade de mudança e crescimento que advém sempre de uma crise.
E chegam as desejadas "suaves memórias" que ficam após um processo de luto bem-sucedido e emocionam, mas não desequilibram.

 

A perda faz parte da vida, tanto como a morte faz. E como qualquer outro acontecimento de vida, marca, muda e faz-nos ser o que somos.

 

No mínimo, a perda faz-nos confrontar com a realidade de que o temos por certo, não o é. E que, onde existe amor, também existe a hipótese de o perder. Faz-nos perceber que onde há vida, há morte. Sem regras, preferências, etnias, cores, políticas, desejos, idades, necessidades... É uma realidade: a morte é inevitável.

 

E essa constatação (ao sair da perda) pode ser um impulso positivo para a vida, para o saber aproveitar e valorizar cada momento.
Mas carrega consigo também um medo... O medo de voltar a perder...
Por isso, se diz que sabemos que um luto foi superado, quando a pessoa se predispõe a amar novamente, a ter um "novo" amor...

 

Falávamos sobre tudo isto...
E falávamos da vontade de trazer ao mundo uma nova vida... de ter um bebé...
As duas que já perderam… uma já mãe, outra com o desejo, mas também receio...

 

Receio de quê?

 

De se desestruturar novamente ao trazer um novo ser ao mundo. Algo que já de si é considerado um momento de possível desequilíbrio no ciclo vital da família. Um momento em que ocorre uma mudança radical no seio da família, em que de dois se passa a três e os três são postos à prova, procurando encaixar-se, adaptar-se e estruturar-se na sua nova vida e novos papéis.
E, um momento também de união na família, de necessidade de suporte, de apoio, em que a recordação dos pais dos “novos pais” (agora avós) e a necessidade do seu apoio é constante.
Mas quando os pais já não estão, fica apenas a recordação numa altura já de si emotiva e, a constatação da falta que fazem. E sempre farão! (Nem imaginam quantas pessoas, com 80 anos e mais, me falaram emotivamente acerca da falta que lhes fazia ter ali a sua mãe ou pai!).

 

Por isso, sim. Medo de nos desestruturarmos, mesmo após o luto feito, quando um acontecimento de vida importante e forte nos traz tantas memórias e nos transporta para novo turbilhão de emoções, ainda que diferente.

 

Eu, já mãe, também tive esse receio antes.
Senti a falta e emocionei-me ainda grávida.
Emocionei-me, recordei, chorei e ri, já mãe.
E, ainda, me emociono, recordo, choro e rio. Com a certeza de que faz parte…
Faz parte de mim, da minha história e do que sou. Sei que vou sentir esta (e outras) perda ao longo da vida e que haverão sempre momentos mais difíceis, em que tudo daria para trazer aquela(s) pessoa de volta e em que a recordação é muito forte e sentida…

 

Mas sabem?
Em parte, eu sinto que nunca a(s) perdi mesmo… Enquanto tiver memória, não terei perdido e quererei sempre falar sobre ela(s), recordar e contar estórias boas e más acerca do que tive a sorte de com ela(s) viver! Incomode isso os outros ou não… Não me importa.

 

E, quando olho para o meu filho, aí… Aí, sim, tenho a certeza de que não a(s) perdi de todo!
“A genética é tramada”, como se diz e os padrões educativos, morais e comportamentais também… Porque aprendemos muito a ver os outros, a imitar os nossos modelos. E, se dúvidas tínhamos das nossas similitudes com os nossos progenitores, não existe melhor espelho delas que um filho!

 

Por isso, com o meu filho emocionei-me, recordei, chorei e ri.
Talvez esteja um pouco mais emotiva, mas também mais compreensiva e tolerante. De uma coisa não tenho dúvidas! Estou num curso intensivo de como adquirir “carradas e carradas” de paciência. Bem preciso!
Também sei e sinto que fiquei mais sensível a notícias e assuntos relacionados com crianças doentes, a sofrer, mal tratadas, vítimas de violência, a morrer ou mortas… Trazem-me o medo… o medo de voltar a perder e o receio de não ser capaz de aguentar mais essa perda. E, aí, como não se pode estar sempre a olhar para o sol (apesar de sabermos que está lá), confesso querer “fechar os olhos” e desviar o olhar, desejando muito o que é certeza (não certa) para muitos: “só acontece aos outros”. Porque só a ideia da perda, já dói… Porque com o amor, vem o medo de o perder…

 

Mas a verdade é que ganhei um tesouro que me faz ter a certeza que Einstein, de certo modo, tinha ainda mais razão  do que julgava: na vida, "nada se perde, tudo se transforma”…
Nada perdi, pois está em mim e será transportado para as novas gerações, num diferente formato, mas está lá.

 

Sim, com frequência, recordo a minha mãe e emociono-me (sem desestruturar). Seja na constatação da falta que me faz a mim ou ao neto que nunca viu, seja no suspiro que me sai de “É castigo..” (como que dizendo: “ela tinha paciência para te aturar, e eras bem pior, por isso, anda! Arranja-te!” ).

 

Na realidade, sendo mãe ou não, recordar-me-ia de qualquer modo e teria igualmente saudades.